O longa‑série da Netflix, dirigido por Tommy Wirkola e produzido por Adam McKay, chega ao público com a promessa de mais um filme de tubarões, mas rapidamente se distancia do clichê ao criar um clima de desconforto crescente. Desde o início, a trama já planta sementes de caos: moradores ignoram a ordem de evacuação, a infraestrutura da pequena cidade desmorona e um furacão avança com força descomunal. O ponto de virada ocorre quando um caminhão frigorífico rompe, despejando sangue na enchente e transformando a água em um banquete turvo para os tubarões‑touro, que detectam vibrações elétricas.
A personagem Dakota, inicialmente parecida com uma figura reativa, ganha profundidade ao usar uma escova elétrica para desorientar os predadores, mostrando que o roteiro aposta em detalhes científicos – os tubarões sentem campos elétricos – para tornar a ação crível. Sua evolução culmina quando, ao mergulhar para salvar Lisa, demonstra que a coragem nasce da ação, não do medo.
O núcleo mais cruel da história se concentra na casa dos irmãos Olsen. Os pais, alheios ao perigo, pagam o preço rapidamente, deixando três crianças à mercê da água crescente e dos dentes afiados. A solução improvisada – carne com dinamite – parece absurda, mas reflete o desespero real de quem luta apenas para sobreviver mais um instante.
Um dos momentos mais surreais é o parto durante a inundação. A cena, embora chocante, funciona como símbolo: enquanto tudo desmorona, uma nova vida surge em meio ao caos, mas sem romantização. A sequência em que Lisa cai na água logo após dar à luz reforça a ideia de que a sobrevivência depende mais da sorte do que de heroísmo.
A entrada inesperada de Nellie, um tubarão‑branco que elimina outro predador, encerra o filme sem transformar o animal em heroína, mas ilustrando a hierarquia natural onde o mais forte domina o menor.
No final, embora alguns personagens escapem, a cidade está em ruínas e uma nova tempestade se forma no radar, sugerindo que o desastre pode se repetir. Essa abertura deixa o espectador com a pergunta incômoda: “E se tudo acontecer novamente?” Uma sequência poderia explorar novos cenários, desastres climáticos e outros predadores arrastados pela fúria da natureza.
O filme está disponível na Netflix.


